O semestre econômico e as perspectivas

O semestre está sendo melhor do que o esperado. Todos os setores (agrícola, serviços, comércio e indústria) já estão melhores que antes da pandemia, embora ainda muito longe de seu pico histórico. A famosa recuperação em “V” já ocorreu ainda no primeiro semestre de 2021, o que não era a previsão da maioria dos economistas no fim do ano passado.
 
Embora o IBC-Br de maio – índice do Banco Central (BC) que tenta antecipar resultados do Produto Interno Bruto (PIB) – tenha decepcionado o mercado, já que marcou queda de 0,43% no mês, o clima ainda é de otimismo. Vale lembrar que o índice de abril foi revisado de 0,44% para 0,85%. Ao contrário deste, todos os setores tiveram aumentos substanciais em maio. O setor de serviços cresceu 1,2%, enquanto o setor varejista e a produção industrial, 1,4%.
 
Apesar de termos enfrentado uma segunda onda da pandemia muito violenta no fim do primeiro trimestre e o fim do auxílio emergencial de 2020, a recuperação se deu basicamente por construção civil e transportes, além de um forte movimento de recomposição de estoques. A recuperação que virá com o avanço da vacinação ainda está por ocorrer, dado que uma boa parte do varejo, do turismo e de eventos ainda está muito aquém dos índice pré-pandemia.
 
Para o segundo semestre, com o avanço da vacinação, deveremos ter a aceleração do crescimento, uma vez que as pessoas voltarão a frequentar mais bares, restaurantes e eventos culturais. Devemos ter também, parcialmente, a volta de grandes eventos e um boom no turismo, sem contar a poupança forçada pela pandemia em 2020, que deverá ser usada a partir do avanço do processo de vacinação.
 
Entretanto, por outro lado, alguns vetores de crescimento que víamos até agora devem arrefecer, como supermercados, farmácias e materiais de construção. Outro setor que deverá diminuir a velocidade de crescimento é o de construção civil, pois o processo de ajuste de juros já é uma realidade, assim como o de ajuste de estoques – que parece ter completado o seu curso.
 
Analisando os vetores positivos e negativos, o resultado deve ser de crescimentos marginais (trimestre a trimestre) bem moderados, o que será suficiente para levar o PIB do ano para próximo de 5%, em 2021, porque já temos um crescimento contratado de, pelo menos, 4% pelo que chamamos de “efeito de carregamento”. 
 
Contudo, este cenário positivo carrega alguns riscos. O primeiro é a inflação. Atingimos, em julho, uma inflação de 12 meses de 8,35%, muito longe da meta. Os alimentos semielaborados e os combustíveis respondem por 50% desse número. Até o fim do ano, deve ficar próxima a 6,5%, forçando o BC a continuar o processo de subida de juros até dezembro e chegar próximo a 7%.  
 
Outro risco é o de racionamento de energia. O clima prejudicou muito os reservatórios, e o fantasma do racionamento está à espreita. Os preços de energia já aumentaram e devem continuar crescendo, e a previsão de chuvas para 2021 e 2022 não são animadoras. Este deve ser um risco muito grande ao crescimento, principalmente no ano que vem.
 
Além disso, devemos considerar os riscos políticos. Estamos nos aproximando das próximas eleições, e a CPI da Covid ameaça a estabilidade do governamental. O maior risco é que, para manter a popularidade, o governo comece a se valer de políticas populistas, abrindo mão do teto de gastos. Caso o faça, levará o arcabouço econômico à ruína e comprometerá definitivamente o crescimento de longo prazo.
 
Atentos a estes riscos, o panorama para este ano é positivo. Para os próximos, será necessário mudanças de curso e reformas que privilegiem simplificação e diminuições de carga e do Estado. Neste sentido, ainda temos pouco.
 

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